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                                                                                       23 de Março de 2018
 

Negócio por ‘sobrevivência’ no País chega a 45% das empresas

Os dois anos de recessão fizeram com que a proporção de negócios abertos por necessidade se equiparasse mais com o número de empresas criadas por oportunidade.

O especialista em empreendedorismo do Sebrae, Enio Pinto, conta que, até 2014, 70% das firmas abertas no Brasil já eram resultado de alguma identificação de nicho de mercado, situação mais próxima da ideal, que seria de 90%. No entanto, essas empresas foram perdendo espaço para os negócios criados por sobrevivência, em decorrência do aumento do desemprego e, hoje, já recuaram para 55%.

O empreendedorismo por necessidade, por sua vez, que antes correspondia a 30%, atualmente, representa 45% das firmas brasileiras. “Estávamos caminhando para chegar a uma situação ideal, mas a crise gerou quase um empate”, diz Enio.

A maioria das pessoas que foram desempregadas pelo mercado de trabalho formal e que tiveram que empreender para sobreviver ou para complementar renda – como forma de tentar alcançar a sua condição salarial anterior – foram se direcionando para os setores de comércio e serviços, principalmente de alimentação e vestuário, que, muitas vezes, não demandam grandes volumes de investimento.

“Por ter essa característica temporária, o empreendedorismo por necessidade fica muito em cima das primeiras necessidades, vestuário e alimentação, nada muito sofisticado. É um comércio bem simples, venda de porta em porta, camelô, prestação de serviços em casa, negócios de fundo de quintal”, enumera Enio, destacando que o caminho mais provável dessas pessoas é fechar o seu negócio, assim que ela tem uma chance de se recolocar no mercado de trabalho como empregada.

Formalização

O coordenador do MBA de empreendedorismo da Trevisan Escola de Negócios André Luiz da Silva comenta que, mesmo em caráter temporário, muitos trabalhadores por conta própria preferem se formalizar por meio do Microempreendedor Individual (MEI), por exemplo, para continuar contribuindo com a aposentadoria (Instituto Nacional de Seguridade Social, INSS) até encontrar um emprego.

Dados do Portal do Empreendedor do governo federal mostram que a maior parte de MEIs abertas no Brasil atuam em comércio varejista de vestuário e acessórios (554.079). Logo em seguida, com 527.052 de microempresas, estão os serviços de cabeleireiro, manicure e pedicure, seguidos dos serviços de obras (287.730), lanchonetes e cafeterias (184.992), armazéns e minimercados (169.311) e fornecimento de alimentos para consumo familiar, como marmita, pizzaria delivery (146.114), entre outros.

Para Ênio do Sebrae, a tendência é que o empreendedorismo por necessidade ainda se mantenha nessa proporção de 45% e comece a recuar na medida em que a criação de postos de trabalho inicie sua aceleração. Ele lembra que a taxa de desemprego ainda continua alta e está caindo lentamente. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desocupação se manteve em 12,2% no trimestre encerrado em janeiro, contra o período imediatamente anterior, atingindo 12,689 milhões de brasileiros. Em relação a igual trimestre encerrado em janeiro de 2016, a taxa recuou apenas 0,4 ponto percentual.

“O emprego é o último a voltar após um período de recessão. Além disso, ainda estamos em um cenário de baixo investimento e situação fiscal crítica. Isso demonstra que não haverá sustentabilidade suficiente para reverter esse quadro [de desemprego alto] de forma rápida. Vamos revertê-lo de maneira gradual”, acrescenta Ênio.

Valor

Ainda sobre a caracterização do empreendedorismo por necessidade, os especialistas afirmam que este possui, em grande parte, pouca capacidade de agregar valor à economia, no sentido de trazer inovação, por exemplo. A pessoa objetiva mais auferir alguma renda para sobreviver do que elaborar um diferencial em alguma prestação de serviço ou criar uma estratégia inovadora em um comércio, por exemplo.

Silva, da Trevisan, destaca que nesses períodos de economia ainda fraca, o giro das compras das famílias nem sempre é tão contínuo. “Quando a pessoa é assalariada, ela tem um consumo mais constante. Quando a pessoa é empreendedora, especialmente por necessidade, em situação precária, ela precisa trabalhar três vezes mais para conseguir a renda que possuía quando tinha a carteira assinada”, comenta Silva.

O professor da Trevisan comenta também que a maioria dos empreendedores por necessidade, se não possuem alguma formação em gestão, tem pouca noção da sua estrutura de custos, o que acaba ocasionando, muitas vezes, em prejuízo e fechamento do negócio.

Por fim, Ênio, do Sebrae, pontua que, dentro desse processo de crise econômica, muitas pessoas acabaram descobrindo vocação para empreender, mas que essa taxa é ainda muito pequena frente àqueles que desejam voltar a ser empregados em uma empresa, quando o mercado de trabalho retomar.

DCI - Diário do Comércio, Indústria & Serviços


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